Saúde

A solidão pode roubar anos de vida saudável — e o impacto é maior sobre a saúde mental
Estudo com 277.489 adultos do UK Biobank mostra que solidão e isolamento social estão associados a uma redução expressiva dos anos vividos sem doenças crônicas. Para homens, a combinação dos dois fatores representa perda de até 5,8 anos livres...
Por Laercio Damasceno - 20/08/2026


Imagem: Reprodução


A solidão, por décadas, foi tratada como uma experiência íntima, quase invisível à epidemiologia. O novo estudo publicado nesta quinta-feira (20), na revista Nature Communications, ajuda a deslocá-la para outro território: o da saúde mensurável. Ao acompanhar 277.489 adultos inicialmente livres de sete grandes doenças crônicas, pesquisadores encontraram uma associação consistente entre solidão, isolamento social e redução da expectativa de vida livre de doenças — sobretudo transtornos mentais.

A diferença não é apenas estatística. Aos 50 anos, mulheres que relatavam simultaneamente solidão e isolamento social tinham uma expectativa de 22,6 anos livres das sete doenças analisadas, contra 25,5 anos entre aquelas que não apresentavam nenhuma das duas condições — uma diferença de 3 anos. Entre os homens, os números foram de 19,6 contra 21,8 anos, uma perda de 2,2 anos.

O trabalho foi conduzido por Xuan Wang, Hao Ma, Yoriko Heianza, Zhaoxia Liang, Oscar H. Franco e Lu Qi, ligados a instituições como Fudan University, Tulane University, Harvard T.H. Chan School of Public Health e Utrecht University. O estudo utilizou dados do UK Biobank, uma das maiores coortes prospectivas do mundo.

O que os números revelam

A pesquisa distingue duas experiências frequentemente confundidas. Isolamento social é uma medida objetiva da quantidade de conexões sociais, enquanto solidão descreve a insatisfação subjetiva com a qualidade dos relacionamentos. Uma pessoa pode ter muitos contatos e ainda sentir-se profundamente solitária; outra pode viver relativamente isolada sem experimentar solidão.

Na amostra, 89,1% dos participantes não apresentavam nem solidão nem isolamento social. Outros 3,3% tinham apenas solidão, 6,8% apenas isolamento e 0,8% apresentavam ambos. O grupo simultaneamente solitário e isolado também apresentava indicadores socioeconômicos menos favoráveis, incluindo menor renda domiciliar, menor escolaridade e pior pontuação de estilo de vida saudável.

A associação tornou-se ainda mais nítida quando os pesquisadores separaram doenças físicas e transtornos mentais.

Entre as mulheres, a presença simultânea de solidão e isolamento social esteve associada a 2,4 anos a menos de vida livre das cinco principais doenças físicas. Entre os homens, a diferença foi de 1,7 ano. Para os dois principais transtornos mentais analisados — depressão e ansiedade — a diferença chegou a 3,7 anos entre mulheres e 5,8 anos entre homens.

É nesse ponto que o estudo ganha uma dimensão particularmente relevante. A associação com a saúde mental foi mais forte do que aquela observada para as doenças físicas. Para homens que experimentavam simultaneamente solidão e isolamento, a expectativa de vida livre de depressão e ansiedade aos 50 anos foi estimada em 30,3 anos, contra 36,1 anos entre aqueles sem essas condições — uma diferença de 5,8 anos.

Os autores consideram biologicamente plausível essa diferença. Evidências anteriores indicam que parte da relação entre solidão, isolamento e doenças físicas ou mortalidade pode ser mediada pela saúde mental, particularmente pela depressão. Também há sobreposição entre fatores genéticos associados à solidão e à depressão.

Quando o estilo de vida ajuda

O estudo traz, porém, uma segunda descoberta — e uma ressalva importante.

Os pesquisadores avaliaram cinco fatores modificáveis: tabagismo, índice de massa corporal, atividade física, alimentação e duração do sono. Cada fator favorável recebia um ponto, produzindo uma escala de 0 a 5. Pontuações de 0 a 2 foram classificadas como estilo de vida não saudável; 3, como intermediário; e 4 ou 5, como saudável.

A associação entre isolamento social e menor expectativa de vida livre de doenças diminuiu substancialmente à medida que o estilo de vida melhorava. Entre mulheres, por exemplo, a diferença na expectativa de vida livre de sete doenças caiu de 2,0 anos no grupo com estilo de vida não saudável para praticamente zero — ?0,4 ano, sem significância estatística — entre aquelas com estilo de vida saudável. Entre homens, a diferença caiu de 1,0 para 0,3 ano.

Para a saúde mental, o padrão foi ainda mais expressivo. Entre mulheres socialmente isoladas, a perda de anos livres de depressão e ansiedade caiu de 2,2 anos no grupo de estilo de vida não saudável para 0,6 ano no grupo saudável; o intervalo de confiança incluía zero. Os autores observam que, nesse grupo, não houve diferença estatisticamente significativa quando a pontuação de estilo de vida atingiu quatro ou mais.

Mas a solidão comportou-se de maneira diferente. A melhora do estilo de vida não reduziu significativamente a perda de anos livres de doença associada à solidão. Para as mulheres, por exemplo, a diferença na expectativa de vida livre de transtornos mentais foi de 3,1 anos entre aquelas com estilo de vida não saudável, 2,6 anos no grupo intermediário e 4,2 anos no grupo saudável.

A distinção é central para a interpretação do trabalho. “Solidão” e “isolamento social” não parecem ser apenas duas faces da mesma exposição. Os mecanismos que conectam cada uma delas à saúde podem ser diferentes.

Um estudo grande, mas não causal

A força do trabalho está também em sua escala. Os participantes foram acompanhados por uma mediana de 13,8 anos para mortalidade e 13,4 anos para ocorrência das sete doenças, período no qual foram registrados 16.356 óbitos e 78.829 eventos de doenças crônicas.

Os pesquisadores ainda fizeram uma análise de sensibilidade excluindo pessoas que adoeceram ou morreram nos dois primeiros anos. Os resultados não mudaram de maneira apreciável, reduzindo a possibilidade de que doenças já em desenvolvimento explicassem integralmente as associações observadas.


Ainda assim, há limites. Solidão e isolamento foram avaliados apenas no início do estudo, por escalas de duas e três perguntas, respectivamente. O estilo de vida também foi obtido por questionários autorrelatados. E, sobretudo, trata-se de uma coorte observacional: os resultados demonstram associação, não causalidade. O próprio artigo ressalta que o UK Biobank não constitui uma amostra representativa da população britânica e teve taxa de resposta de 5,5%.
Essa cautela, contudo, não diminui a dimensão do sinal encontrado.

O estudo transforma uma experiência subjetiva em uma variável capaz de alterar uma medida concreta de saúde pública: os anos que uma pessoa pode esperar viver sem uma das principais doenças crônicas. A mensagem mais sofisticada talvez esteja justamente na diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho.

Para o isolamento social, hábitos mais saudáveis parecem oferecer uma espécie de amortecedor. Para a solidão, entretanto, caminhar mais, dormir melhor ou abandonar o cigarro não parece suficiente para eliminar o déficit observado. Os autores sugerem que outros caminhos — entre eles estresse psicológico e neuroinflamação — merecem investigação.

A solidão, assim, deixa de ser apenas uma condição emocional difícil de medir. Neste estudo, ela aparece como um marcador associado à perda de anos de vida saudável — particularmente aqueles que deveriam ser vividos sem depressão e ansiedade. E essa diferença pode ser tão importante quanto simplesmente perguntar quanto tempo uma pessoa viverá: a questão passa a ser quantos desses anos serão vividos com saúde.


Referência
Wang, X., Ma, H., Heianza, Y. et al. Associações entre solidão, isolamento social e estilo de vida saudável com a expectativa de vida livre de doenças físicas graves e transtornos mentais. Nat Commun 17 , 6816 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-74498-8

 

.
.

Leia mais a seguir